• Camila Wolf

A importância de contextualizar os sentimentos

É comum vermos a apropriação de termos da psiquiatria e psicologia para designar comportamentos ou estado de humor e muitas vezes, feito de forma inapropriada e sem um diagnóstico que justifique o seu uso.

Quem nunca ouviu que Luiza é bipolar, e Pedro, hiperativo. Quando envolve sentimentos de tristeza ou desânimo, logo ouvimos alguém sugerindo a possibilidade de depressão.

De acordo o Manual Diagnóstico Estatístico dos Transtornos Mentais (DSM-V) - para o diagnóstico de depressão maior, é preciso que o sujeito preencha cinco ou mais sintomas, por pelo menos duas semanas e que representem mudanças no funcionamento prévio:

1. Humor deprimido na maioria dos dias, quase todos os dias (por exemplo: sente-se triste, vazio ou sem esperança);


2. Acentuada diminuição do prazer ou interesse em todas ou quase todas as atividades na maior parte do dia, quase todos os dias;


3. Perda ou ganho de peso acentuado sem estar em dieta ou aumento ou diminuição de apetite quase todos os dias;


4. Insônia ou hipersônia quase todos os dias;


5. Agitação ou retardo psicomotor quase todos os dias;


6. Fadiga e perda de energia quase todos os dias;


7. Sentimento de inutilidade ou culpa excessiva ou inadequada, quase todos os dias;

8. Capacidade diminuída de pensar ou concentrar-se ou indecisão, quase todos os dias;


9. Pensamentos de morte recorrentes, ideação suicida recorrente sem um plano específico, ou tentativa de suicídio ou plano específico de cometer suicídio;

E aí, você se identificou com algum item?

Provavelmente sim. Vou dar um exemplo para ilustrar meu raciocínio.


Marina descobriu que seu namorado a traía e acabou terminando o relacionamento. Ela está muito triste (humor deprimido). Passa a noite toda pensando no que ela poderia ter feito de errado para merecer tal traição (culpa excessiva ou inadequada). E quanto mais pensa, menos dorme (alterações no sono). Quanto menos dorme, menos consegue se concentrar no trabalho (capacidade diminuída de pensar). Vive se queixando de cansaço (fadiga e perda de energia). Seu estômago embrulha toda vez que pensa no ex e na amante, e com isso, passa horas sem comer (alterações no apetite). Algumas vezes se pega pensando em desistir da vida (pensamento de morte).

Pode-se perceber que os sintomas descritos são comuns e de fácil identificação. Eu não tenho dados objetivos, mas aposto que 90% das pessoas que estão lendo esse texto, já viveu cinco ou mais sintomas no passado, e talvez no atual momento.

E agora? Como saber se Marina preenche os critérios da depressão? Observando e assinalando os sintomas? Ou iremos além, buscando contextualizar a situação, e perceber que sua tristeza e prejuízos emocionais fazem sentido em seu momento atual?

E quanto ao critério - mínimo duas semanas - justificam depressão? Foram 5 anos de relacionamento. Será que menos de 14 dias são suficientes para Marina elaborar a perda, lidar com a raiva, decepção e frustração e finalmente, dar a voltar por cima?

Ao invés de dizermos que Marina está depressiva, podemos falar que ela está triste. Muito triste.


A tristeza é um sentimento como qualquer outro e precisa ser validado.


Podemos ficar triste por perder alguém, perder o emprego, ter que trocar de cidade. Ficamos triste por não saber o que fazer em uma situação, por passar dificuldades financeiras, por sofrer decepções.

Existe uma série de motivos que nos levam a ficar tristes, e essa tristeza pode demorar algum tempo para passar.


Acredito fortemente, que precisamos contextualizar antes de diagnosticar. Todo rótulo, envolve um peso, um fardo e uma série de intervenções específicas. Mas isso não quer dizer que a depressão não exista.

Existe sim. Quando os sintomas perduram um longo período, não fazem muito sentido em estarem presentes no momento atual, e ocorrem numa intensidade que acarreta em prejuízos significativos, devemos ligar o alerta para um transtorno psiquiátrico.


Nos dois casos, seja tristeza ou depressão, é importante ter um uma rede de apoio e suporte. Procurar atividades que proporcionem prazer e bem estar. Ajuda especializada também é recomendado.


Todos nós passamos por momentos de intenso sofrimento. E isso é bom. Mostra que ainda somos humanos, demasiadamente humanos.

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